Thursday, July 19, 2007

Meados.

Enconstado na parede, assistia o desdém que o sorriso dela tinha pelo mundo. Passeava por entre as pessoas e, segura de si, lhe pediu um cigarro. Lamentou quieto antes de dizer que não fumava, e não se fez de rogada em deixar o vício bobo de lado. Uma sincera expressão dócil e os olhos deles acenderam as velhas lamparinas que sempre soube que dela eram.

As pessoas, como as cervejas e os cigarros em volta mal atingiam seus sentidos. Era agradável só perceê-la. Um tímido gole fez molhar-lhe a secura da boca sem fugir os olhos. Os cabelos já não mais coloridos dela sentiam o vento e sem pausa as coisas encaixavam-se. Experimentou tocar-lhe só com o pensamento, e logo deslizou as costas da mão nas faces enrubrecidas.


Não ousou desviar momento sequer seus olhos. Em pouco tempo, as mãos percorreram as costas e o abraço cauteloso e confortável fizeram-lhes acreditar que amanhã acordariam sorrindo.

Friday, July 13, 2007

Meu eu.


Sentado no banco verde de madeira e largos parafusos, arrepiava-o cada murmúrio da gélida brisa que atingia-lhe a nuca, passando pela fina fresta entre seu casaco marrom claro e seu cachecol bege. Em plena decadência, seus cigarros vagabundos não eram os mesmo de outrora, e seus sapatos haviam perdido o brilho de outros tempos.

Os maus presságios vieram sorrateiros. Primeiro, desfizeram sua família. O emprego e as relações afetivas foram-se gradativamente na fumaça de sua arrogãncia. As mãos trêmulas viviam na falsa tentativa de não se arrepender de atos passados. Amarelos, dedos que nunca se conformaram de não serem aceitos, mas sim postos de lado.

Folheva o livro que achou no banco. Maltrapilho, estava ali com suas páginas passadas pelo mesmo motivo que ele: a falta de opções. Naquelas páginas encontrou a cor da praça cinza que estava. Mesmo que não soubesse ler aquelas palavras, ali estavam todos os seus caminhos tortos e idéias solas. Ali, no alcance da mão, estava seu eu.

Saturday, July 07, 2007

Mazelas.

Quando o sol nasceu, as aspirações desse amanhecer logo se foram. O dia, que já durava algumas horas, correu rápido ao seu meio, o que configurou seu café como almoço. A língua sentia ainda o maturado do amargo gosto da madrugada, e cambaleava na luta entre o cansaço e seu objetivo.

Pairava em frente à porta do andar de cima de seu apartamento. Ensaiava tal discurso à dias em frente a móveis e espelhos, mas precisou de horas além cotidiano pra tomar coragem de dizer. O corredor se fazia temeroso, caminho difícil de percorrer com joelhos trêmulos. Vestia ainda a roupa de ontem, que era hoje e sempre. Só seria amanhã quando conseguisse dizer-lhe tudo que entupia ferrenhamente sua garganta.

Encostou na parede a poucos metros da campainha. Cambaleava a medida em que passava o batido texto em sua cabeça. Era simples sua construção, mas árduo de ser efetivado. Existem coisas que não se dizem assim, mas se o dizesse em outras circunstâncias seria jocosamente humilhado.

A campainha fazia seu mundo girar, e apoiou-se nos calcanhares. Sem cerimônias, se viu deitado no chão abraçado ao estomâgo, como se pudesse conter tudo que havia ingerido nas inúmeras e intermináveis horas que não dormiu. O cozido que o café fez das anfetaminas queimou a garganta antes de percorrer da camiseta ao tapete, preenchendo o chão que os separava. Os urros das convulsões chorosas a fizeram abrir a porta, e em pouco tempo a única coisa que conseguia dizer era suprimida pela sirene da ambulância:

- Me perdoa.

Tristeza.

Que encontre sem demora sua paz. Se depender de sua doce flauta, já a encontrou a muito tempo.

http://jc.uol.com.br/2007/07/06/not_143594.php

Thursday, July 05, 2007

Matutino.

Parecia tentar encontrar no passado as escolhas que o tornaram assim. Buscava quem sabe conforto nas palavras evasivas sobre o futuro que alcançaria. Privava-se de coisas que nunca buscou. Ou não se sentia preparado ou preferia se acomodar no que alcançava sem esforço.

Os carros passavam frequentes pela janela. Da vista da madrugada, via sonhos vazios vividos profundamente, e via sonhos distantes sempre perseguidos por mentes e corpos sofridos. Fumava com veemência, acendendo cigarro ao outro. O vento fazia dançar a fumaça como seus sonhos, e sabia que ela, como eles, iriam para algum lugar e precisava logo saber onde.


Bebeu o café amargo e pôs-se a dormir no sofá, com a televisão ligada. Quando acordasse, esqueceria dessas mazelas. Mas elas voltariam sorrateiramente durante o passear dos ponteiros, e o encontrariam no ciclo das madrugadas, sozinho com seus cigarros na janela.