Friday, May 02, 2008

Enigmas do vinho.


Queria ter corrido contra o vento nos campos italianos com sua bicicleta. Chegar no vilarejo e espiar com os amigos a bela morena com seus fartos seios escapando à vestimenta a estender a roupa no varal pendurado na sacada do sobrado, e ser molhados pelas crianças contentes que brincam com água no meio da rua.


Bebido tonéis e tonéis de vinho cujas uvas ele mesmo pisoteou dançando sem lavar os pés. Dos pães, das linguiças penduradas e dos queijos mofados com bichos servidos com pedaços de pêras duras se empanturrado. Recebido os abraços da suja camisa branca que seu pai usava, mesmo em casa, e os carinhos de uma mãe afavél ali por ele.


Se aventurado ao frio e a chuva pra ouvir a música do acordeon fazer a menina sorrir. Queria apenas ter vivido.

Sunday, April 06, 2008

Extra! Extra!


Não se sabe ao certo o que aconteceu. O fato é a morte do velho junk. Os comprimidos foram, pela tubulação, esgoto abaixo. Se encontrou o amor ou deus, se apenas cansou das luzes coloridas colorindo as pupilas, ou mesmo cresceu por e pra si.

Deixou de lado a literatura, mas estreitou laços com pintura. Da diferença entre as drogas e os remédios, apenas a quantidade, só continua com a cafeína; cigarro ou outro de vez em quando. Apagou as tatuagens de cachimbo e cansou da hipocrisia. Hoje, na praça da República no centro de São Paulo, vive a vender fotografias.

Não se sabe o que aconteceu. O fato é que o velho junk morreu.

Thursday, March 20, 2008

Ácido.

Percebeu as coisas estranhas quando todos olhavam seu vago pensar intrigados porque ele não comia. Sorriu distraido e então lembrou que não gostava muito de ervilhas, tampouco de brócoles. Se fosse ele quem o servisse, provavelmente não tocaria na salada. A carne regada ao molho de azeitona e cebola agredia seu estomâgo apenas pelo cheiro, mas junto com o arroz branco, alcançavam perfeita simetria nas cores e na disposição.

Talvez divagasse sobre o impossível. Isso o entre tinha quando faltava coragem de encarar os olhos que o fitavam julgosamente. O suco cheirava doce, e o brócoles insistia em parecer a sua mãe: coma, é o gigante que devora as pequenas árvores. Seu pai diria apenas coma, mas o pai dela na atual conjuntura não conseguia nem cuspir o que sentia.

Confrontava cada nuance do vento, que criou pra se distrair. Conheceu a menina na cerveja, criou-a no jazz e a devorou no samba. Dilacerou-se em apenas dois momentos: o primeiro confronto e o enfim, a ceia familiar. Já não se importava em parecer agradável.

Soou como uma nota de pistão desafinada. Apenas sorriram quando encheu os olhos de ervilha e respirou o brócoles. O garfo na testa passou-lhes despercebido.

Friday, January 11, 2008

Dois.

Apenas três bolinhas de ração por vez. Se mais, o peixinho amarelo comeria até explodir, e seria o terceiro animal de estimação que veria morrer desde a infância. Na mesa redonda de madeira escura, largou o regador e as luvas com que cuidara das plantas, e deixou que o vermelho do sofá a absorvesse junto do seu cansaço de dia todo.


Em pouco tempo, depois do banho morno, procurava os cantos da boca que lhe sorria por cima do ombro na memória, numa crua lembrança. Afagou os cabelos perto da nuca, cerrou os dedos e por capricho não ensaiou algumas lágrimas. Apagou a luz antes da coragem de abrir os olhos voltar, e como terapia, espalhou no caminho até o quarto incomodos rotineiros, caso da insistência do vizinho do prédio da frente que só via quando a observava melancólico.

Minutos depois das duas, a fraca luz do abajur desprezava parcialmente as almofadas no pé da cama, a mão fazia o papel de marca página quase ao meio do livro de escritor israelense, o vestido xadrez em verde escuro, creme e vermelho pendurado no dorso da cadeira antiga que herdou da avó faziam jus ao esforço que valia o aluguel do apartamento a um mês e meio.

Monday, January 07, 2008

Um.

Era só fechar as portas de vidro da varanda que barulho algum entrava ou saia. Mas as mantinha abertas, nunca é bom sufocar o trompete de miles davis que a vitrola gritava. O whisky pedia mais uma pedra de gelo como a parede uma nova mão de tinta, ambos negligênciados. A varanda era pequena com azulejos, e salvo o vaso com o pé de pimenta e a luz amarelada que fugia da sala com o jazz, estava só.

De braços largados ao parapeito e camisa semi aberta, pitava o cigarro ao vento do nono andar. A calça dobrada no tornozelo não chegava perto dos pés descalços. Vagava os olhos pelas janelas dos prédios da frente, depois do minhocão, e a mesma senhora triste pelo bingos fechados, o mesmo casamento que sempre tentava e nunca conseguia acabar de vez, a mesma prostituta de cabelos descoloridos e roupa vermelha, o mesmo grafite prevendo o apocalypse e o mesmo viciado cheirando em cima da televisão compunham a paisagem.

Menos ela. Destoava com seu cabelo preso e a mesura com que regava suas plantas, o colorido do pedaço do quadro da sala junto com o sofá vermelho. Verdade que nunca olhou praquela janela. Eram mais de onze, a garrafa por acabar e ali o motivo de arrastar uma cadeira pra varanda todo fim de noite não padeceria logo. Da sacada do quinto andar, ela sorriu pras plantas e fechou as portas. Ainda vazavam feiches de luz por elas quando decidiu dormir na varanda e esperá-la.

Thursday, November 15, 2007

Dourado.

A gaveta da geladeira era a pior parte da cozinha. Pelos sacos transparentes seria fácil identificar as hortaliças, mas figuravam por lá há tempos, e já estavam todas iguais num verde úmido com seus marrons. E eram 4 maços de cheiro verde em putrefação na geladeira, intocados. Os dois pés de repolho não se abriram antes de amolecer do lado dos caquis, os que mais contribuíam pro chorume orgânico do fundo da gaveta.

Mas, pior mesmo, era o cheiro do alecrim, o único fresco, no meio de tudo isso.

Foto do flickr/valerapena.

Friday, September 28, 2007

Animaizinhos de caramelo.


Foi bem estranho. A peça lhe parecia restrita , com piadas forçadas em caricaturas duras e secas. Mas podia-se, na opinião dele, explorar e descontruir contruindo em cima do espaço que permitia muito. Eles insistiram impor um palco italiano. Não que malveja, mas um paco italiano com grande interação talvez fosse mais adequado.
O decorrer da peça pareceu reconfortante. Algumas risadas forçadas perdidas por ainda algum fanfarrão que mal chegou a 8 dias de solidão. Mas já mostrava sinais de soltura no palco, estréia aflita. Grupo universitário, púlbico incentivador, mas nem um pouco crítico. Mesmo assim, galgou um belo trajeto ao instigante momento de "a peça acabou e como vai ser amanhã?". Isso ocorreu depois, mas o decorrer foi estranho.
Atrasos o fizeram chegar ao ponto exato do começo. Densa e literal, a peça, leitura de Garcia Marquez, era uma projeção de imagem rudimentar do livro. Até me divertia, quando ela apareceu, na cena de descoberta sexual por parte de um buendía, José Arcádio, exatamente. Era a cigana que o fez sair da família por duas décadas. Reconheci de imediato, mas com medo de demonstrar certa afinidade, tardei a comentar o fato.

Era como uma certeza surreal. Como se os heróis e crenças da infância legitimassem-se. Mas teria de esperé-la e surpreendê-la, que podia nem lembra-lo. Ficou sorumbático por tempos, a ver como o palco dobrava de tamanho. De repente, com breve anúncio que poderia facilmente passar dispercebido, viu que a garota lhe passaria ao lado, mas tomou-se pelo riso, pela sensação de delírio. Passou com bela máscara, mas assim que o viu a peça parou, ao menos à eles. Ela titubeou,voltou a pensar em Remédios a Bela (quinto personagem). E pouco, pouco mesmo passou até que ela congela-se aquele momento como fotografia num olhar de dois dias em dois segundos.

Depois ele a viu, e viu o quanto disfarçava-lhe o olhar, medo ou que. Conversaram depois, por iniciativa dele, mas a nada se levou. Enquanto ele se abria, extremamente patética ela justificava-se com negações baratas. Mas a peça havia de continuar outro dia.

Monday, September 24, 2007

Bobagem pouca.

Sobrava uma longa e completa volta dos ponteiros do relógio. A abstinência da nicotina era suprida com canecas de café, amargo e frio. Não gostava de nada muito doce.

Era simples o dilema. Se ela ligasse até a meia noite, teria enfim trancado os medos no cômodo ao lado, ou mesmo pra fora da janela. Estaria apta a sinceridade e a cada palavra empurraria o eixo do mundo dele um pouco mais pra cima. Dali veria as coisas mais simples, independente do que fossem. Desligaria o telefone depois de um bom tempo, sorrindo por saber o que fazer assim que acordasse.


Mas ela podia não ligar. E se assim, não teria bússola nem estrelas pra mais uma noite que seguiria perdido. Resolveu assim colocar um pouco de açúcar na enésima caneca de café. Viu-se amargo demais.

Friday, August 31, 2007

Acaso.

Desceu a rua afoito. Ao longe, mirava a pequena presília branca no cabelo negro. A multidão por si só não é nada, mas ela na multidão era muito. Corria por meio de mochilas e valises, aventais, ternos e casuais. As bolinhas pretas da blusa branca se aproximavam, mas não ousaria envolver o braço na cintura dela e dizer-lhe aquilo tudo que lhe engasgava.

Atravessou a rua ressabiado. Passou por ela do outro lado, e o azedo do cigarro ficou na bituca arremessada. Todos os conflitos foram apaziguados pelo denso gole d´agua. A garrafa guardou na mochila, e fitou rápido a menina que o fazia doce. Descia lenta, e ele podia até calcular o ponto que a encontraria na rua.


Virou as costas um momento. Organizou as idéias em tópicos fluentes e coesos, e tinha certeza de não titubear mais. Iria até ali e nenhuma mazela o faria distanciar de seu objetivo. Respirou fundo e se virou. O sorriso caiu atônito, e tudo escorreu no bueiro mais próximo. A multidão a engolira. Olhou pra cima cheio de sarcasmo antes de suspirar:


- Maldito Baudelaire.

Thursday, August 09, 2007

Conflitos fracionários.

Uma vez comi uma bala que concentrava 70% de hortelã. Tinha alergia, mas balinhas ou chicletes e chás passavam despretenciosos num vício desde os 15 anos. O sul do país era quente de suar colchão no curto verão, na tentativa de amenizar o frio que sempre os perseguia. Em menos de um minuto, meu rosto começou a inchar como se pegasse fogo e escorria até o peito visando o braço. Engolir o medo de agulha tão grande e tomar 30 mg de antiestaminico na veia recortou um pedaço da adolescência por correr o risco de receber um doce abraço sem o devido cuidado com os ossos.


Não sei o que comi ou que senti o cheiro que acordei as 4 da manhã quase rancando a pele de tanto coçar a palma das mãos, mas já tinha acontecido e um allegra 60 resolvido. Acordei depois de 20 horas depois totalmente empipocado, num estado entre o dormir e o acordado a ponto de distinguir a realidade tornar-se insignificante. Sozinho em casa não conseguia ficar de pé para passar pela porta e ir até o hospital. Tempo depois meu pai chegou e me levou quase dormindo pra lá e com dois allegras no organismo em 24 horas. Lá, a máquina que leu minha pressão errado e enquanto piscava amarelo seguida de bip sonoro. Acusava 207 por 196.
Me perguntaram se ainda possui as faculdades mentais e disse que sim, só que não conseguia me mover. Duas leituras depois e a máquina denunciou o breve proagnóstico como errado, e o estabilizou em 119 por 63. Apenas três minutos de conversa e 80 mg de antiestaminico deveriam derrubar as 2 horas que estava acordado, mas não durmi desde então. O corpo ainda coça como queimaduras pequenas e constantes que ao serem tocadas fazem feridas. A certeza de acordar amanhã e ter de buscar remédios é possível se conseguir manter a mente ocupada o bastante pra não pensar nisso. Pequenas e frequentes compressas de água fria feita com as mãos ajudam a relaxar enquanto esfriavam o corpo.

Thursday, July 19, 2007

Meados.

Enconstado na parede, assistia o desdém que o sorriso dela tinha pelo mundo. Passeava por entre as pessoas e, segura de si, lhe pediu um cigarro. Lamentou quieto antes de dizer que não fumava, e não se fez de rogada em deixar o vício bobo de lado. Uma sincera expressão dócil e os olhos deles acenderam as velhas lamparinas que sempre soube que dela eram.

As pessoas, como as cervejas e os cigarros em volta mal atingiam seus sentidos. Era agradável só perceê-la. Um tímido gole fez molhar-lhe a secura da boca sem fugir os olhos. Os cabelos já não mais coloridos dela sentiam o vento e sem pausa as coisas encaixavam-se. Experimentou tocar-lhe só com o pensamento, e logo deslizou as costas da mão nas faces enrubrecidas.


Não ousou desviar momento sequer seus olhos. Em pouco tempo, as mãos percorreram as costas e o abraço cauteloso e confortável fizeram-lhes acreditar que amanhã acordariam sorrindo.

Friday, July 13, 2007

Meu eu.


Sentado no banco verde de madeira e largos parafusos, arrepiava-o cada murmúrio da gélida brisa que atingia-lhe a nuca, passando pela fina fresta entre seu casaco marrom claro e seu cachecol bege. Em plena decadência, seus cigarros vagabundos não eram os mesmo de outrora, e seus sapatos haviam perdido o brilho de outros tempos.

Os maus presságios vieram sorrateiros. Primeiro, desfizeram sua família. O emprego e as relações afetivas foram-se gradativamente na fumaça de sua arrogãncia. As mãos trêmulas viviam na falsa tentativa de não se arrepender de atos passados. Amarelos, dedos que nunca se conformaram de não serem aceitos, mas sim postos de lado.

Folheva o livro que achou no banco. Maltrapilho, estava ali com suas páginas passadas pelo mesmo motivo que ele: a falta de opções. Naquelas páginas encontrou a cor da praça cinza que estava. Mesmo que não soubesse ler aquelas palavras, ali estavam todos os seus caminhos tortos e idéias solas. Ali, no alcance da mão, estava seu eu.

Saturday, July 07, 2007

Mazelas.

Quando o sol nasceu, as aspirações desse amanhecer logo se foram. O dia, que já durava algumas horas, correu rápido ao seu meio, o que configurou seu café como almoço. A língua sentia ainda o maturado do amargo gosto da madrugada, e cambaleava na luta entre o cansaço e seu objetivo.

Pairava em frente à porta do andar de cima de seu apartamento. Ensaiava tal discurso à dias em frente a móveis e espelhos, mas precisou de horas além cotidiano pra tomar coragem de dizer. O corredor se fazia temeroso, caminho difícil de percorrer com joelhos trêmulos. Vestia ainda a roupa de ontem, que era hoje e sempre. Só seria amanhã quando conseguisse dizer-lhe tudo que entupia ferrenhamente sua garganta.

Encostou na parede a poucos metros da campainha. Cambaleava a medida em que passava o batido texto em sua cabeça. Era simples sua construção, mas árduo de ser efetivado. Existem coisas que não se dizem assim, mas se o dizesse em outras circunstâncias seria jocosamente humilhado.

A campainha fazia seu mundo girar, e apoiou-se nos calcanhares. Sem cerimônias, se viu deitado no chão abraçado ao estomâgo, como se pudesse conter tudo que havia ingerido nas inúmeras e intermináveis horas que não dormiu. O cozido que o café fez das anfetaminas queimou a garganta antes de percorrer da camiseta ao tapete, preenchendo o chão que os separava. Os urros das convulsões chorosas a fizeram abrir a porta, e em pouco tempo a única coisa que conseguia dizer era suprimida pela sirene da ambulância:

- Me perdoa.

Tristeza.

Que encontre sem demora sua paz. Se depender de sua doce flauta, já a encontrou a muito tempo.

http://jc.uol.com.br/2007/07/06/not_143594.php

Thursday, July 05, 2007

Matutino.

Parecia tentar encontrar no passado as escolhas que o tornaram assim. Buscava quem sabe conforto nas palavras evasivas sobre o futuro que alcançaria. Privava-se de coisas que nunca buscou. Ou não se sentia preparado ou preferia se acomodar no que alcançava sem esforço.

Os carros passavam frequentes pela janela. Da vista da madrugada, via sonhos vazios vividos profundamente, e via sonhos distantes sempre perseguidos por mentes e corpos sofridos. Fumava com veemência, acendendo cigarro ao outro. O vento fazia dançar a fumaça como seus sonhos, e sabia que ela, como eles, iriam para algum lugar e precisava logo saber onde.


Bebeu o café amargo e pôs-se a dormir no sofá, com a televisão ligada. Quando acordasse, esqueceria dessas mazelas. Mas elas voltariam sorrateiramente durante o passear dos ponteiros, e o encontrariam no ciclo das madrugadas, sozinho com seus cigarros na janela.

Wednesday, June 27, 2007

Degustação.

Na cozinha, o pimentão era a forma de casar o aliche, sem pensar em nada senão em suas harmonias. O alho em finas fatias como lâminas inquieto percorria o azeite domado de ira enquanto o manjericão era triturado ciente de suas mazelas. Abraçaria o prato e elevaria seu sabor à ponto de introspecção, mesmo perdendo seus talos. O queijo e a noz moscada eram ralados e, ao mesmo tempo, os pimentões vermelhos se juntava ao alho na dança sobre o azeite sabendo que seria responsável pela carga de ousadia.

Tímido, em pouco tempo o aliche se desfez, amarronzando o molho que os tomates sem pele ao se desfazer propuseram junto ao todo. A água borbulhava seduzida com a idéia de cozer o macarrão gravata, que amaciou-se sem cerimônias. O prato foi servido à mesa com tinto forte aos convidados, que, sem pratos, serviram-se em cima de suas cabeças, mesmo na ausência de talheres. Enjerido as pressas, queimou-lhes as orelhas.

Esse texto faz parte dos que foram escritos em bloquinhos de papel com canetas bics. Tem algum tempo, mas amadureceu agora sem ter certeza disso.

Tuesday, June 26, 2007

Retalhos.


As coisas iam e vinham com tamanhas turbulência e intensidade que nada conseguia segurar. Maturavam enquanto flutuavam como borboletas pretas e amarelas nas quinas perto do teto, nas teias de aranha do lustre e nas frestas atrás dos móveis. Fugiam às suas mãos com destreza a ponto de se fazerem perto demais para que não perdesse o desejo por elas.


Tentou por vezes subir na estante para agarrá-los, e na queda pensava esmagar alguns, mas os via sorrirem enquanto corriam longe o banstante apenas para que presenciasse o deboche. Passou dias à fio na cama assistindo suas danças, e súbito jogou a colcha por cima deles. Para nunca mais perde-los, costurou um a um em sua pele.

Saturday, June 09, 2007

Desperdício.

O espaço vazio ainda fazia impor o respeito de quando freqüentava a cama dele.

Dividir a cama com quem não está lá é doloroso, e respeitar esse espaço nostálgico era deprimente, mas não o fazia de outra forma mesmo consciente de tal mazelas. Sentia certo prazer em chorar observando o nada entre as ondas dos lençóis e o colchão.

Na dor cotidiana tentava entender porque não. Com a nuca apoiada nas mãos e o lençol presente em metade de seu corpo, divagava sobre seus demônios. O cigarro fumava apenas depois de certa hora, mesma que ela costumava dormir. Não gostava que ele fumasse, e mesmo assim o fazia na janela todas as noites, enquanto bebia o quarto de vinho que insistia em sobrar do jantar.

Nesse dia arremessou a garrafa cheia pela janela e se perguntou porque não disse:
- Fica.

Tuesday, May 29, 2007

Cinza.


O abraço tomou ares de último trago de cigarro. Com vontade aspirou e absorveu o resto de calor que ela lhe proporcionava, segurou na garganta a ponto de doer e soprou pra longe, mesmo destino da bituca. Não que o abraço terminara para ela, era apenas ele que apreciava o gosto ruim que a fumaça deixa na boca.

As cores dela esvaíram-se abruptamente, mas imperceptíveis. Acendeu outro cigarro, esse já mais saboroso, e as palavras que ela lhe cantava eram pano de fundo para o barulho da chuva. As gotas corriam pelo vento como as lágrimas dela não tardariam. Respirou fundo e tossui, pra nunca mais tossir, aquele resto de saudade que grudara por ali.

Caminhou pra fora do toldo e sentiu a chuva apalpar seu rosto. Por mais que tenha apagado o cigarro, a chuva o conheceu ali.

Wednesday, May 02, 2007

Quem sabe.


As singelas batidas da sola do sapato marrom claro denunciavam que pouco importaria se haveria chuva ou neve depois do fraco sol. Suficiente apenas para agitar o cachecol verde e bege em seu pescoço, o vento soprava-lhe a calma de que tudo daria certo. O contraste entre a flor vermelha e a rua sempre verde enobrecia seu caminhar.
Assim que passou pelo canteiro de rosas brancas estremeceu. Ele a viu por ali lendo por seus óculos de aro fino, sentada bem na frente do canteiro, alguns poemas e contos. Depois de um tempo fumaria com doçura e leve desprezo o cigarro, e quem sabe o chapéu vermelho ao lado não fosse apenas para que se o sol aumentasse. Em pouco tempo levantaria, arrumaria o cabelo castanho e, com os livros na bolsa lateral e o chapéu na outra mão andaria leve a ponto de fazer o tempo parar para que pudesse ir embora.
Corria para lá todos os dias, assim que a manhã começava a tomar os espaços da lua. Ela teria de voltar ao menos uma vez.