Tuesday, April 17, 2007

Bon appétit.

Pensou em cada detalhe.

Os pratos foram colocados sob a toalha de linho branco, e as taças a frente, na direita. Os talheres imponentes repousavam sobre os quardanapos azuis e ao centro, junto do vinho tinto, um candelabro acendia a sala. Reunidos em volta, os amigos que o acompanhavam a anos, desde crianças. A espera era de ânsia plena, e era travado um duelo interior para contê-la.

Não estava bem, e todos sabiam. A cerimônia era o primeiro passo para sair de um eu sufocante. E todos ali sabiam o prazer que tinha em cozinhar, pensando assim o propuseram. Prometeu-lhes algo especial. Deixou a porta aberta, para que sentassem na mesa sem estragar a surpresa. Nem o cheiro escapava para seduzi-los.

Os vasos de flores vermelhas eram os mesmos de sempre, mas os quadros nas paredes eram novos, e não tardou a serem reparados. Eram feios e nada diziam, assim pensaram todos por ali, e clara era a assinatura do "chef" nelas. "Ainda bem que não cozinha como pinta" foi a linha dos sucessivos deboches, num tom exato para apenas os presentes gargalharem por entre as mãos.

A espera tornou-se angustiante. A garrafa de vinho vazia, o cinzeiro pela metade e as mãos impacientes passaram a ser destaques da mesa. Quando o banheiro se tornou inevitável para um deles, não teve coragem de olhar o corpo nu submerso na banheira mais do que tempo suficiente para ler o que estava escrito em seu peito.

Friday, March 16, 2007

Lentes.


Tinham sentado-se brevemente nos azulejos, lado a lado. Ignorando o velho e rude banco verde de madeira e ofertando-lhe em troca a cortez presença no centro da foto, aconchegaram-se cada um à sua primordial maneira. As mãos desceram habilmente ao nível dos pés, esticados em direção a rua, e não se fez de rogado antes de percorrer a maior parte da distância que a separava pela espera relutante da outra mão. Quem sabe não tivesse absorvido ainda tal intensidade, ou então, compreendido e visto nela uma cruel fraqueza fantasiosa.


As plantas dos canteiros da praça, coube de forma obcordada compor parte da moldura; o resto ficou à cargo do céu e os medianos feiches de sol que escoavam pelas folhas do um ipê amarelo. O vestido com pequenas violetas destoava um pouco da camisa com listras dele, mas ninguém havia notado. As mãos se entreolhavam indecisas pelas ações, afinal, não era muito tempo, tinha o que, menos de meses, mas se encaravam com propriedade e prestes a um arriscado passo.


A delicada música do realejo ao fundo dançava com os lábios, e bastaria que as mãos se encontrassema para começar a girar lenta a meticulosa engrenagem que os juntaria. O pacote caído de pipocas era a representação de que pouca coisa importava ali. Os olhares fitavam-se de velhos, e breve cairia por terra todas as precauções que os impediam de se apaixonar.


Há poucos metros deles, tragava com cautela o último trago do cigarro. A cinza caia grande ao mesmo tempo em que apertava o botão e sua cara sissuda começava a virar sorriso.

Monday, March 12, 2007

Crônica de um Crime.

Thomas, Priscila e Marcos Vinícius. Esses três amigos costumavam viajar juntos para a praia. O destino, geralmente, era o Guarujá, no litoral paulista. Apesar do pouco tempo que se conheciam – pouco mais de um ano – tinham já desenvolvido uma forte relação de cumplicidade. Era como se cada um deles já tivesse se tornando membro permanente da família um do outro. O curso de Jornalismo ainda nem chegara a sua primeira metade, mas já se mostrava um ambiente bastante rico em termos de relacionamentos afetivos. E prometia ainda mais, pois todo um conjunto de disciplinas, reportagens, trabalhos, festas e viagens estava à espera daquele pequeno grupo entusiasmado de jovens estudantes. Sem dúvida nenhuma, os laços que os uniam teriam se estreitado com o passar do tempo. Porém, um grave incidente encerraria, de forma brusca, aquela amizade.

Parte I - Estrada



No dia 29 de agosto de 2004, por volta das 16h30, após um final de semana com outros colegas da faculdade na praia do Guarujá, Thomas, Priscila e Marcos Vinicius retornavam à metrópole, descansados e muito relaxados, prontos para enfrentarem a semana exaustiva. Nada melhor para equilibrar os nervos do que um rápido e estimulante passeio nas bordas do continente. Na subida da serra, na Rodovia dos Imigrantes, porém, a história mudaria seu rumo. Tudo começou com um raspão no retrovisor de um outro carro no Gol prata de Thomas. Como se quisesse tirar alguma satisfação, mais uma vez, o outro veículo – um Tempra, insulfilmado – grudou no carro de Thomas até haver um choque sério, no qual o vidro traseiro direito estilhaçou-se. Priscila, que estava no banco traseiro, não entendeu bem o que estava acontecendo. Por sorte, não se feriu com os pedaços de vidros arremessados. O susto, infelizmente, era pouco para o pesadelo que estava por vir.

Mais à frente, Clécio Barbosa Ayres – motorista do Tempra, policial militar havia cinco anos – ultrapassou Thommy e forçou, com uma forte brecada diante dele, a parada do carro. No momento da ultrapassagem, quando eles saiam do túnel, Clécio colocou uma arma para fora do veículo e deu um tiro para o alto como forma de intimidação. Sem ter por onde escapar, Thomas viu-se obrigado a parar no acostamento. E parou. Dali a poucos instantes, já não poderia mais seguir em frente.

Clécio, de shorts e sem camiseta, desceu do carro e foi em direção ao Gol prata dos jovens. Com a arma em punho, aproximava-se ameaçadoramente. Thomas já suplicava: "Calma! Calma! Calma!". Soltando o volante, as mãos espalmadas acompanhavam, fielmente, suas palavras. Não percebendo nenhum sinal amistoso por parte de Clécio, Thomas tentou engatar à ré, mas não conseguiu. Colocou, então, a primeira marcha. Olhou para trás para se assegurar de que não vinha nenhum carro . Antes de poder acelerar e escapar daquele desconhecido armado com uma pistola .40, a viagem acabara para Thomas . Um tiro certeiro atingiu a nuca de Thomas Schwarzenberg, 20 anos de idade, estudante de Jornalismo do Mackenzie que, naquele mesmo dia, um pouco mais cedo, tinha oferecido seus bilhetes de ônibus aos amigos, pois, segundo ele, não precisaria mais usá-los.

O carro de Thomas saiu, então, desgovernado até bater no carro de Clécio, parado um pouco mais à frente e que era ocupado, além do motorista, por um amigo, Daniel, e duas acompanhantes, Simone e Michelle. O policial pediu que Priscila e Marcos Vinícius descessem do Gol e encostassem na mureta. Enquanto isso, o próprio Clécio ligava para a polícia, enquanto Daniel foi até o carro de Thomas e urinou sobre o pneu.
Pouco tempo depois, a polícia chegou, seguida pelo Resgate. Clécio foi preso em flagrante. No hospital, aconteceu o primeiro encontro entre os amigos de Thomas e seus familiares. Neste momento, a mãe da vítima, Cynthia Marlene Schwarzenberg, abraçou fortemente Priscila como se buscasse, ali, os últimos momentos de vida de seu filho.

Quando já estavam na delegacia, todos no mesmo salão, Clécio andava de um lado ao outro, sem algemas, fazendo ligações de celular com uma tranqüilidade para aquela situação. A impressão que se tinha é que, mais uma vez, Clécio contava com a impunidade, afinal de contas, estava com a Carteira de Habilitação vencida e com o licenciamento do carro irregular e parecia não se preocupar com tais inconvenientes. Somente após a chegada da Imprensa, levaram-no para uma sala isolada. O resto da noite é previsível. Junto com ligações para familiares e depoimentos à polícia, muita dor e revolta, choque e incredulidade. A única coisa que se sabia, naquele momento, é que as marcas daquela tragédia demorariam muito para cicatrizar e que, por mais pesadas que fossem para carregar, elas seriam indeléveis.
Esse é a primeira de três partes que compõe a matéria especial Crônicas de um crime, elaborada originalmente para integrar o jornal interno Diretriz da Universidade Mackenzie.

Tuesday, March 06, 2007

No céu.


Correm rápidas, sem destino certo. Grandes que são, parecem fugir do sol. Amarelas, negras, brancas, vermelhas. Desmancham ao vento como painas. Se fazem amores, saudades, lembranças tolas de colombinas, pierrots, balões, ursos ou o que se quiser ver. Percorre o céu seu carnaval. Ora zangas, ora serenas e chorosas. Pode estar escuro, que mesmo assim estão lá, prontas pra emoldurar a lua ou esconder tímidas estrelas. Veja quem quiser seu desfile, mas veja rápido, pois amanhã quando amanhecer podem não estar mais lá.


Texto de dezembro de 2005.

Wednesday, February 21, 2007

De repente, moça flor.

Passava as pontas dos dedos em cada grade cinza dos prédios, no compasso do andar. Assistia ao suicídio altruísta das flores, que se jogam da árvore e acabam como presente para cabelo de meninas, e lembrei dela. Lembrei feliz dela feliz, lembrei do beijo feliz que sempre me dá com a ponta dos lábios e de como é triste quando corre pra casa. De cócoras apreciava as gotas d'agua que polvilhavam as pétalas da flor branca e amarela, e resolvi ali que seria pro cabelo da minha menina. A flor se fez alegre e sorriu pelo seu destino.

Wednesday, February 14, 2007

Cúmplice.


Assistiu do sofá o iminente desfecho. Queria dizer lhe dizer que se ele fosse embora morreria, mas faltou substância pra passar no nó da glote. Enquanto ele selecionava minuciosamente os cds que levaria, preferia olhar sem estar ali, estava presa em lembranças. Deixou os Chicos e os Piazzollas que ela tanto gostava, levou os Tom Zés e os Los Hermanos e se esqueceu de Miles Davis e Edith Piaf. Ela fez questão de lembrá-lo de Egberto Gismonti, a dança daquelas cabeças fazia queimar os nervos e dilacerar os músculos sem ele.

Pegou seus quadros e deixou os vinhos, compraría-os em qualquer lugar de qualquer dia. Se portava como em uma grande liquidação, onde o custo das coisas que selecionava eram pedacinhos do seu eu.

O adeus foi breve e triste, mas caloroso, como em qualquer outra vez em que saiu de casa pra voltar. O espetáculo trágico de única apresentação deixou o autor/ator satisfeito e, no mesmo momento que descia as escadas, a platéia sucumbira a derreter em prantos até ser absorvida pelo vermelho do sofá.

Wednesday, January 31, 2007

De grão em grão.


Inclinou o azeite suficiente para que se formasse um fino fio dourado e passeou com ele sobre os recém cozidos grãos-de-bico espanhóis. Ainda colocaria sal e vinagre, mas no momento dividia as atenções entre cortar em pequeninos cubos as cebolas e a água que fervia as gordas salsichas alemãs, que fatiaria em rodelas como fez às cebolinhas.

Vestiu a mesa de toalha xadrez vermelha e verde, dispôs a travessa das salsichas ao lado à dos grãos, na frente da jarra de água e atrás do pote de molho de mostarda preta. Pintou seu prato meticulosamente pra que ficasse bem colorido, e o observou durante longos segundos antes de comê-lo, intercalando as garfadas com goles d'água.

Repetiria o ritual todo dia ao entardecer, desde que completara 23 anos. As segundas, quem fazia as vezes da salsicha eram grossos bifes, e as terças costelas assadas. As quartas amassava os grãos com hortelã e os comia com pão, nas quintas, mesmo as de muito calor, cozinhava um grosso caldo de grãos-de-bico com bacon, e nas sextas servia-os acompanhados de bacalhau. Sábado apreciava os grãos com gengibre, e junto do cozido ainda iriam alguns alhos e molho shoyo.

Comia sempre sozinho. Morreu antes de completar o vigésimo quarto ano de vida.

Wednesday, January 24, 2007

Mais uma taça.


Tinha vontade de vinho. Trocaria seu sangue por ele se possível, devia valer ao menos um Bolla, e como uma garrafa seria pouco, trocava também seu terno e seus sapatos. Não existia razão concreta, a costura de seu mundo o deixava puto. Via erro em tudo, consumido então por um fracasso parcial que cegara qualquer outra aspiração. Coisas pequenas, leves toques, queimavam forte. Implorava piedosamente que se colocassem em seu lugar de verdade, cansou das situações invertidas serem palcos de dramas e o seu, comédias pastelonas. A hipocresia e as farpas saturaram, e não estava disposto a receber vis afagos. Enquanto não concluia onde encontrar seu vinho, fumou o nono cigarro.

Wednesday, January 17, 2007

Lamparinas de meu eu.

A foto do passado recente já não causa mais comoção. Passou apenas a ser foto, retém ali um outro eu onde o eu de hoje não caberia. A mesma foto hoje sairia igual, mas pouco provável que ficasse na cabeceira. Cairia na gaveta das coisas que passaram e mereceram um registro, e são elas tantas que seria apenas mais uma.

A foto da cabeceira de hoje saiu da mesma gaveta de ostracismo, mas saiu elegante. Galgou um caminho com classe por cima das outras, sabia que não merecia estar ali. Fez acender cada lamparina do meu céu e tocar cada sino de vento das janelas de meu eu. E é por isso que já não caberia no eu da outra foto ou em qualquer outro que fui.

Monday, January 15, 2007

Pela janela.

A garrafa rolou lentamente e, manchado pelas gotas de vinho que sempre arrumam um jeito de escorrer, o rótulo do Lambrusco dell´Emilia safra 1995 de certo sorria como as tantas garrafas espalhadas pelo chão.

Junto deles, as xícaras de porcelana chinesa ainda apreciavam o último gole de café, já melaço. O cinzeiro tossia os cigarros, e roupas mesclavam-se com velhos sapatos. Os discos caiam junto aos lençóis da cama vazia, e dois corpos desnudos se entrelaçavam com sonhos.

Com audácia, a chuva passou as rendas da cortina e fria tirou o sono dos rostos pálidos.

Foto retirada de http://www.flickr.com/photos/gutembberg/320177510/

Wednesday, January 03, 2007

Noite de verão.

O abraço selou o acordo. A partir dali, seriam cumplices em tudo. Frustrações seriam e aspirações eram agora assuntos corriqueiros como a falta de café ou o filme da televisão. Esse modo de pensar banal, de ser apenas por não ser nada, era testemunhado pelas maduras paredes brancas descascadas no rodapé e pela poeira de alguns cantos da casa. Foram construidos enormes arranha-céus e mesmo assim se pode ver a lua dentro do quarto. A paella de sentimentos era degustada ainda quente, para quem sabe as queimaduras ficassem na garganta. Mas perpetuar aquele dia não foi necessário quando descobriram que assim seriam todos os outros.

Saturday, December 23, 2006

Isadora.

Naquele dia acordou com 70 anos. Talvez a única coisa que deseja-se, um sorriso sincero do mundo ou mesmo do espelho, estivesse tão distante quanto suas rugas. Sentou-se no banco de todas as manhãs, viu as sombras das folhas dançando no chão como costume e pegou um cigarro. Custou a acende-lo; as folhas que desciam de seus galhos o enfeitiçavam. O que teriam de diferente naquele dia?

Em deboche, a caixa do correio não se deixava fugir de vista. Ninguém escrevia ao Coronel, era ousado ao despedir-se assim da filha dele, mas covarde não faria diferente. Como a passagem do tempo podia moldar outras pessoas, mal reconhecia a mulher que fizera. Seus brilhos eram falsos, e buscando repouso do alto que uma folhinha deitou em sua perna. Pequena manifestação de delicadeza que o assustava de mistério.

Isadora costumava sempre se vestir bem. O cabelo preso num coque representava bem a personalidade resguardada. Escondia-se no funda da caixinha de música francesa, presente da avó, e ali dançava regida por Edit Piaf. Por vezes culpava o velho Coronel de joga-lo tão fundo, outras a si mesmo. Num tapa no ar, a pequena hóspede voou de seu joelho na coreografia circular que a levou até ali.

Levantou aflito, passou o café e não atendeu o telefone gritar desesperado, nem as batidas que ouviu na porta. Pouco importavam quem fosse, e a flor em tons pastéis da xícara se enrubescia de fazer parte daquilo. Isadora caiu como caiu a folha do joelho, que diferente dela, permaneceu na sombra do quintal ainda por uns dias.

Foto retirada de http://www.flickr.com/photos/seveneleven/309373859/

Hello, Dolly.

http://livromoderno.blogspot.com/

Friday, December 22, 2006

De Tito a Brunnen.


O espetáculo corria bem. Do estilo New Orleans, permeado por todas as vertentes que o fizeram desde o blues no seu lado coral do sofrimento dos negros americanos, aquele jazz emoldurava um fim de ano atípico, mas nem por isso menos prazeroso. A companhia saia há poucos meses do fundo da gaveta das pessoas que passam pela vida e ganhara status de melhores acontecimentos dos últimos tempos. Intrigado, passou a admirar os momentos em que lhe passava a garrafa d'água, onde os dedos por mais que inocentes se tocavam. Logo virou brincadeira, onde polegares, indicadores e dedões se enfrentavam vigiados de perto por olhos atentos. O braço tomou o contorno do pescoço dela e o beijo pareceu tímido, como tantos outros seriam aquela noite, e foi reconhecido por aplausos que como eles tinham esquecido do pequeno clarinetista Tito.

O quinteto de Tito deixou seus pontos. Na cerveja de depois os assuntos foram muitos, e distantes deles reestruturaram seus amores. O chopp escuro foi a saidera, e o brinco que caiu virou suvenir passageiro. Despediu-se e agradeceu a carona ao sair do fusca verde abacate, imponente como só, vestiu o terno e acendeu um cigarro. Quantas cervejas ainda não seriam tomadas em memória.

Sunday, December 17, 2006

E.. se foi.


No caminho escreveu-lhe uma carta. Dizia ali tudo que nunca disse, de forma que nunca disse. O percurso sempre vazio estava cheio, domingo de manhã. Os vintes minutos tardaram a passar, cada estação do metro parecia uma cidade diferente. Prometera uma ligação à ela logo cedo para um boa viagem, mas decidiu por aparecer lá e fazer-lhe surpresa. Chegou afoito, e percorreu toda a rodoviária, quem sabe ela já não estaria por lá. Resolveu então ligar, e a voz que atendia dizia sempre a mesma coisa de após o sinal. Sentou encostado na parede em frente as companhias que vendem bilhetes de ônibus que vão ao Rio de Janeiro quando o sol só tocava a ponta dos seus pés e acendeu um cigarro. Quando levantou o sol já cobria toda a parede, o ponteiro menor do relógio já passava das 11 e as bitucas dos vinte cigarros do maço lotavam os 3 copos de café. E nada dela.

Saturday, December 16, 2006

E se sesse.


Podia ter ligado antes, mas passou o dia na rede branca pendurada no estreito quintal. Passava as mãos pelas franjas bordadas da rede a confabular a ligação. Pensou cada respiro, cada pausa, cada tom de pronuncia. O sol se foi atrás do prédio, e então percebeu a luz da cozinha que tinha deixado acessa desenhar reflexos no muro do quintal ao passar pelo vidro da janela. Já era tarde, mas admirou o telefone um bocado, era ele quem lhe traria a voz dela.

Quando um Oi acabou com ligeiros e agoniantes toques, caiu por terra toda uma tarde. A tenda de circo havia furado, e a chuva que entrou não deixou nem vigorar uma semente que serviria de história. Em segundos iria embora, e só voltaria para ir embora de novo, nem sabe quando volta. A pretenção era chegar por volta das sete matutinas na rodoviária. Despediu-se rápida com um beijo doce.

Voltou para a rede, e fez dela um casulo. O cigarro que acendeu virou cinza inteiro, o café esfriou, o disco terminou e ninguém foi lá pra vigorar a vez do lado b. As nuvens prateadas o convidaram, dançaram devagar e ele não se moveu. Num ímpeto, encheu a cara de coragem, pulou da rede e se vestiu as pressas. Desceu as escadas rapidamente e no caminho apanhou a flor do solitário vaso de porcelana da pequena mesa de centro da sala. A rodoviária ficava apenas a vinte minutos dali.

Thursday, December 14, 2006

E se chover demais..

Coisas boas.


Não dava pra esquecer. Flor antiga, que deixou sua marca. Talvez soe nostálgico, pois é marca pra vida toda, aquele pedaço que se divide o antes e depois. Uma lição de encanto pra aprender que passou, e foi rápido assim pra intensidade que fez amadurecer. Parabéns moça.

Wednesday, December 13, 2006

Orfão de chaleira.

Se contassem todas as folhas de hortelã que passaram por aquele filtro dentro dela só nos ultimos anos, forrariam-se dois travesseiros. Era o ritual bobo de sempre: colocava as folhas de hortelã (as mais graúdas) que pegava no jardim de casa, enchia de água até a metade e acendia o fogo, com o cuidado de levantar a alça pra que não esquentasse. Não tardaria até que pelo bico terminado em chanfro subisse o vapor avisando que o chá está pronto. Pelo mesmo bico desceria então, mas as folhas ficariam presas dentro do filtro, colocado antes da tampa. Encheria a caneca vermelha até dois dedos da borda, e uma colher de açucar seria o suficiente. A chuva ou o sol dariam o tom do cenário, e na janela seria apreciado o chá. Voltaria então a cozinha e lavaria a pequena chaleira, mais velha do que meus vinte anos, que já estava fria, e guardaria no canto esquerdo inferior do armário.
Até o dia em que o armário foi arrumado, e quem o fez julgou que aquela chaleira pequena e amassada merecia o lixo. Foi a última vez que soube dela.

Monday, December 11, 2006

Como antigamente.




Em meio as pastilhas brancas adornam janelas vermelho tijolo, ela fumaria um cigarro confundindo a fumaça com as nuvens em volta da lua, branca. Pensaria algo distante, além do desenho daquela noite e dos prédios que limitam sua visão. A água gelada ameniza a noite quente paulista, e do nono andar, uma das poucas luzes acessas no prédio, ecoa no vento uma bonita cantiga antiga. Olha de repente pra baixo, e o vê ali no seu passo tranqüilo carregar uma flor. Os olhares não tardam a se encontrar e virar sorrisos, e enquanto o elevador vira uma eternidade, a rua toda a espera ansiosa, sem se mover.